Comunidade de Melola clama pelo cumprimento de promessas

Residentes de Melola atingidos pelas plantações de eucalipto da empresa Lurio Green Resources (LGR) no distrito de Mecuburi, província de Nampula, exigem o cumprimento das promessas que a companhia fez quando ocupou as suas terras, há dez anos.

Situada no posto administrativo de Mecuburi-Sede, Melola fica a 23 quilómetros da vila-sede de Mecuburi. A população sobrevive da agricultura de subsistência e produz milho, mandioca e castanha de cajú. A maior parte da produção serve para o consumo e o resto é vendida na vila-sede de Namina e nas feiras comerciais que acontecem na comunidade, uma vez por semana.

Como todas as comunidades rurais do país, em Melola a população leva uma vida humilde, sem grandes expectativas sobre o futuro. Mas tudo parecia mudar com a chegada da empresa Lurio Green Recources que opera no corredor de desenvolvimento de Nacala, na província de Nampula, plantando eucalipto em grandes extensões de terra, para exportação.

Quando a LGR chegou em 2009, prometeu emprego, estradas, pontes e escolas em troca das terras da população. A comunidade acolheu a empresa e as promessas com agrado. Dez anos depois, o que parecia ser o final feliz ou a solução dos velhos problemas económicos e sociais de um povoado que sobrevive ao deus-dará, transformou-se em pesadelo.

Sobre as promessas pouco ou nada se fez, o que tem estado a criar insatisfação em relação à empresa e ao governo local, a quem acusam de conivência e de pouco fazer para defender os interesses da população.

“A Lurio Green destruiu as nossas machambas. Como está a situação da empresa que desalojou as pessoas aqui na comunidade e não indemnizou? A população de Melola está a sofrer cada vez mais. Levem essas informações, queremos respostas da Lúrio Green”, disse Pedro Toquereque, líder comunitário de Melola.

Oficinas comunitárias

A desilusão e as preocupações da comunidade foram partilhadas numa oficina comunitária organizada pela Acção Académica para o Desenvolvimento das Comunidades Rurais (ADECRU), a 8 de Novembro corrente, como parte das acções de auto advocacia das comunidades rurais atingidas por projectos de plantações de monoculturas no corredor de Nacala.

As oficinas visam aferir até que ponto as comunidades estão informadas sobre os projectos de plantação de monoculturas no corredor de Nacala; consciencializar a população sobre os seus direitos e o impacto dos empreendimentos nas suas vidas. A iniciativa faz parte do projecto de “fortalecimento das organizações da sociedade civil para o processo de democratização” financiado pela Ajuda Popular da Noruega.

Em três horas, cerca de 100 participantes da oficina expuseram as suas inquietações sobre o projecto de plantações que actualmente parou e atirou para o desemprego vários residentes de Melola que trabalhavam nas plantações. A comunidade quer saber sobre o processo de indemnizações, que segundo ela, para além de ter sido injusto, ainda não teve um desfecho claro.

“Quando vocês chegaram pela primeira vez nos encontraram doentes. Hoje neste vosso regresso, a doença não passou porque os nossos problemas não foram resolvidos. A nossa doença piorou, não recebemos a escola, as estradas, a ponte e as indemnizações que nos foram prometidas”, disse a comunidade.

ADECRU, que trabalha com a comunidade de Melola há três anos, falou sobre os passos que estão a ser dados depois dos encontros anteriores com a comunidade. Mencionou as cartas enviadas ao Governo distrital e provincial com o objectivo de persuadir as autoridades locais sobre a necessidade de ouvir a população e de forma articulada atender as suas preocupações.

LGR a meio gás

ADECRU sabe que actualmente, os projectos da Green Resources estão em fase de restruturação razão pela qual as actividades nas comunidades abrangidas pelas plantações de eucalipto como Melola, as actividades estão a ser implementadas a um nível baixo e muitos trabalhadores locais foram despedidos.

Em Nampula, a Lurio Green Resources (LGR) adquiriu do Governo um direito de uso e aproveitamento da terra de 126.000 hectares válido para 50 anos nos finais de Dezembro de 2009. Até 2012, as plantações decorriam em regime experimental. Em 2013 começou-se a fazer as primeiras plantações comerciais que abrangeram cerca de 946 hectares

Até Dezembro de 2015, a LGR apenas plantou 4.420 hectares de eucalipto (uma espécie híbrida, resultante de um cruzamento entre o Eucalyptus grandis e Eucalyptus urophylla).

As comunidades atingidas pelas plantações da LGR em Mecuburi são Mutapua-Namina, Nicala, Nachipala, Ratane, Nhatuco, Intatapila, Cupela, Naculue, Nanrele, Tcaveliua, que muito

provavelmente passam pelas preocupações dos vizinhos de Melola desde 2009.